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O Primeiro Presépio

O Primeiro Presépio


Ver o Natal brilhar nos olhos dos nossos filhos faz-me voltarà época natalícia da minha infância. Longe do consumismo do século XXI, fazer opresépio e a árvore de Natal em casa dos meus pais marcava a contagemdecrescente para o dia 25 de Dezembro. Lembro-me do primeiro pinheiroartificial que tivemos (como tanto de nós, acabou em casa dos meus avós) e dasfigurinhas do presépio que a minha mãe foi juntando ao longo dos anos.

Ir ao musgo, procurar essa relva em miniatura (ainda há umasemana vi em Lisboa o vasinho a 5€!), era uma tarefa que significava estarquase a chegar a celebração do nascimento do Menino Jesus. O nosso presépiofez-se, durante anos, no lugar da lareira que não acendíamos e só anos maistarde albergou uma salamandra. Retirávamos a caixa de Skip redonda dos meus brinquedos e a braseira de cobre para,durante mais ou menos um mês, erguermos uma aldeia cujos lagos eram fragmentosde espelhos, a vegetação musgo da quinta dos meus tios ou do descampado emfrente da linha de comboio. E a neve, essa precipitação que só viria a conhecerbem gaiatão, eram dedos polvilhados de farinha e pedacinhos de algodão. Porentre pastores, rebanhos, a Leonor a ir à fonte, um poço na colina e uma pontesobre água estagnada a refletir a minha inocência, lá foram Playmobiles, Legos, GI Joes, e até o He-Man e o Skeletor, junto aos Reis Magos, adorar o recém-nascido salvador.

Verdade que o presépio da minha meninice foi guardado numa velha caixa de lata azul e expatriou-se, se não me engano, para casa da minha irmã. Hoje, minha mãe tem vários presépios nas vitrines da sala de jantar. Herdou esse gosto da infância que só nos últimos anos pôde consolidar. Porém, o seu humilde presépio, o primeiro, teve três infâncias: a sua, a da minha irmã e a minha.

Este Dezembro, com um presépio Made in China e musgo virado a norte no campo aberto à infância dos nossos filhos, fizemos o primeiro Portal de Belén na aCourela. Para eles, como para mim, as figurinhas pouco diferem da bonecagem com que brincam, contudo o acto foi simples e solene. Só se faz uma vez ao ano, tal como infância só se tem uma, dure ela o tempo que durar.

Procuro-me constantemente nas palavras dos outros. Há poucos autores nos quais posso dizer que sempre me encontro. Manuel António Pina é um dos escassos nos quais me encontro com tanto adrego como encontro um bom amigo, do qual há muito nada sabia, ou esse velho livro, metido bem para o fundo da estante, que tanto fez por mim. Por mais estranho que me pareça, nas suas palavras sinto que sou eu, que somos nós:

Como a infância, o Natal é algo que só podemos ter quando o perdemos. Quando somos crianças, o Natal é próximo de mais, e real de mais, para ser verdadeiro. Só a memória (e a memória construímo-la como um presépio: com pedaços) o torna verdade. E só a memória nos permite saber, enfim, algo essencial: que o Menino da manjedoura éramos nós.

Sobre el autor

Luis Leal

Luis Leal nació en Évora (Portugal) en 1980. Es licenciado en Enseñanza de Portugués e Inglés, y tiene un máster en Historia del Arte. Ha ejercido la profesión de profesor de lengua y cultura portuguesas en tierras rayanas de la Extremadura española a lo largo de más de una década. Al mismo tiempo ha colaborado en programas de radio y televisión, en la prensa española y portuguesa, así como en diferentes proyectos de traducción literaria, de divulgación cultural y cooperación transfronteriza. Cronista activo en la prensa y en la blogosfera, tiene alguna poesía publicada. Su crónica en Rayanos Magazine, se llama: Habitar.

1 comentario

  1. Isidro

    Uma bela descrição das experiências, partilhadas pelas familias de ambos países vizinhos, na quadra do Natal.

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